quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Resumo do Sutra Lankavatara




Capítulo I- Discriminação

Neste capítulo, é citado sobre a importância de não enxergarmos os fenômenos através do dualismo, cuja visão é própria de um ignorante. Fica claro que os fenômenos observáveis são como um sonho projetado na mente, ou seja, de ordem interna, diferente de um fenômeno externo que as pessoas costumam acreditar serem verdadeiros ou dotados de uma natureza inerente. Cita, também, que esta destreza propicia a realização do Dharmakaya, mantendo a distância dos sentidos e da mente discriminativa. Um ignorante absorto, entregue ao surgimento incessante dos fenômenos, entrega-se à discriminação, diferente dos sábios.


Capítulo II- Falsas imaginações e o conhecimento das aparências

Buda cita que o mundo objetivo nasce da própria mente, e as pessoas comuns as consideram como uma realidade absoluta. Buda cita que há alguns estudantes Brâmanes que afirmam que há uma substância externa associada às causas e efeitos, assim como há niilistas que não considera qualquer continuidade dos fenômenos, assim como do karma.
Diz que ambos são como um jarro fragmentado ou uma semente queimada, que não podem realizar a sua função original. Estas falhas partem das discriminações errôneas do mundo objetivo. O Sutra afirma que as tentativas de vincular os fenômenos às palavras não são consistentes, visto que as palavras são condicionadas, e esta tentativa torna-se um apego. Cita, também, que o erro em si não tem uma natureza e também não traz o apego. O erro, na verdade, inviabiliza a percepção que os fenômenos são unos, proporcionando aos ignorantes uma visão dualista destes mesmos fenômenos. Afirma que Nirvana e Samsara existem em uma condição de integração, ou seja, é impossível a análise de um dos dois sem a complementação recíproca. Este capítulo é finalizado com a consideração de que a verdade só pode ser percebida pela consciência profunda de quem a procura, e não através das palavras ditas, de uma maneira até sedutora por quem quer que ouça.


Capítulo III- O conhecimento correto e o conhecimento das relações

No início deste capítulo, Buda diz a respeito sobre o “ser” e sobre o “não ser”. Buda prega que cada indivíduo que considera uma destas vertentes mais verdadeiras em relação à outra, afirma que a via preferida pode proporcionar a emancipação, ou seja, sentencia que ambas não tem este poderio. Aqueles que defendem a posição do “ser” acreditam que todas as causas devem “existir” e o que não existe, não pode gerar as condições kármicas. Os que defendem o “não ser” admitem a existência dos Três Venenos, negam os elementos que desencadeiam a Ira, a Avareza e a Estupidez. O Sutra diz que é melhor apreciar a existência da vida do que manter em mente a noção do vazio partindo da especulação “ser e não ser”, pelo fato do mundo externo estar condicionado a manifestação da mente. Quem percebe um fenômeno e se apegar como algo que existiu e veio a cessar, causa no observador um grande sofrimento, diferente da percepção que os fenômenos externos são manifestações da mente. Buda diz que os filósofos chegam a se perder com as tentativas de destrincharem o ser e não ser, e que estas movimentações tiram a tranquilidade de quem procura o caminho. Neste capítulo é utilizado uma analogia para exemplificar sete tipos de vazios para identificá-los com clareza. Buda menciona dois tipos de apego que impedem a compreensão da verdade, entre eles o apego aos objetos e o apego ao nome, em ambos os casos como se tivesses natureza própria. Para finalizar é citado que uma concha, uma argila, um recipiente, uma roda ou sementes ou quaisquer elementos são condições externas, enquanto a ignorância, a discriminação, o apego, o hábito e o karma são condições internas, ou seja, devem ser as preocupações para aqueles que buscam o caminho da iluminação.


Capítulo IV- O Conhecimento Perfeito e o Conhecimento da Realidade

Buda reitera a sistematização em abster de rótulos os fenômenos através da descrição dos Cinco Dharmas, que são considerados: a aparência, o nome, a discriminação, o conhecimento correto e a Realidade.
Quanto a aparência, podemos dizer que é a conformação dos objetos externos em relação aos sentidos. No contraste que cada elemento apresenta é surgido o nome de cada um, que através destas associações pura e simples se forma intrinsecamente a discriminação. Como os três primeiros elementos são vazios, aqueles que o percebem passam a adquirir  um Conhecimento Correto. E como nenhum dos elementos anteriores pode ser construído de forma que representa a realidade em si, inclusive os conhecimentos corretos, no instante da desconstrução, têm o que foi proclamado como o Verdadeiro Dharma que é a “Realidade”.
Como uma forma de esclarecer a importância de não ser perpetuada as indagações do ser e do não ser, Buda descreve uma “Mente Universal”, no sentido de um tronco comum da vida, diminuindo a importância de se considerar o que não é surgido.
Buda explana sobre os três conhecimentos:
- Conhecimento das aparências, peculiar aos ignorantes e ingênuos, cujos possuidores deste só enxergam o que é óbvio e aparente e não tem preocupações com suas proposições e linguagem;
- Conhecimento relativo, que se trata do conhecimento dos filósofos em que são manifestados em forma de pensamentos organizados, que visam dirimir questões existenciais, e que tem a capacidade de vislumbrar a importância e o valor das coisas.
- Conhecimento perfeito, que é peculiar aos Bodhisattvas, que compreendem que as “coisas” são manifestações da mente, assim como compreendem a natureza do vazio, também. Através deste conhecimento, livres de erros e falhas, aquele que cultiva esta espécie de conhecimento se livra da dúvida especulativa e a inteligência transcendental é consumada.

  
Capítulo V-  O Sistema Mental

O Sutra cita que todos nos fenômenos podem ser descritos em duas categorias distintas. As más emanações e as boas emanações. Toda a atividade espiritual interna habita a categoria da boa não emanação. O que produz as más emanações é o sistema mental através da discriminação. Toda tentativa de categorizar os fenômenos são contaminados pela tentativa de discriminação da mente.
Há três modelos de atividades de sistemas mentais:
- Mentes sensoriais que respondem aos estímulos envoltos nos sentidos, funcionando tal como um espelho que reflete os objetos (mente sensorial que funciona enquanto permanecerem na sua natureza original);
- Mente sensorial como produtora de efeito, produz projeções de acordo como as sensações reagem a mente discriminativa, produzindo uma série de percepções quanto apegos e aversões;
- Mente sensorial como desenvolvimento tem a ver com a aproximação do indivíduo a Mente Universal;
Há três divisões da atividade mental:
- O pensamento que funciona em relação ao apego: condicionam que os elementos externos possuem uma substância própria;
- O pensamento que funciona em relação a idéias gerais: Procura atribuir características aos objetos, permitindo uma análise mais aprofundada sobre os respectivos ciclos de vida.
- Pensamento como função examinadora: a partir das idéias gerais, realiza uma análise inteligente, à luz de um conhecimento pleno e utiliza este entendimento para auto-realização. Buda diz sobre a importância de o indivíduo primar pela Mente Universal em detrimento da mente discriminativa, pelo condicionamento que causa sofrimento ao ignorante que não segue esta via. Buda cita que no instante da inversão que os fenômenos externos são desprezíveis para alcançar a iluminação e lugar mais íntimo da consciência é o que deve ser buscado.


Capítulo VI- Inteligência Transcendental

Este capítulo cita que auto-realização se encontra no lugar mais íntimo da consciência. Para compreender este processo é preciso considerar: palavras, significados, ensinamentos e a Sabedoria Nobre.
As palavras, embora sejam meros símbolos, se forem utilizadas de uma forma ordenada, são fundamentais para transmissão de um significado. Quem é preso meramente as palavras é um palreador. Através dos significados é possível produzir um agrupamento de idéias e realizar os ensinamentos e aquele que procurar a verdade, encontrará uma orientação em meios aos ensinamentos para alcançar a auto-realização. Apesar das palavras serem somente símbolos, somente através dela é possível ordenar os conceitos para efetivar a transmissão do Dharma. Os ignorantes e ingênuos confundem todo este encadeamento, dando vazão as idéias e imaginações próprias, acarretando em um distanciamento da realidade. Quando alguém busca o caminho do Dharma, perceberá a verdade, destituída das alegorias apresentadas. Neste capítulo é isado um exemplo que muitas vezes quando é apontado o dedo, é confundido com a direção que é apontada. O dedo pode ser considerado tal como a palavra, e o dedo apontado como a realidade última. Cita, também, que os significados são obtidos com muita dedicação, e isso faz com que os investigadores da verdade reverentemente vão até os sábios. Cita que há inúmeros falsos religiosos que pregam a mentira e usam sua eloqüência para propagar doutrinas errôneas. Também é mencionado os filósofos materialistas que atribuem o sentido da vida a fenômenos externos, que ao percebe, a auto-realização como algo partindo do próprio interior. Descreve que o Tathagata ensina que a perfeição não está relacionada com o “Divino Atman, mas sim relacionado ao Dharmakaya, sendo este sim, o Nirvana em si.


Capítulo VII- Auto-realização

Este capítulo inicia com a pregação de Buda, respondendo como é possível alcançar a auto-realização. É citado quatro coisas que o discípulo sério deve seguir:
- Compreensão que as coisas são manifestações da mente;
- Deve descartar a noção do nascimento, permanência e desaparecimento;
- Deverá entender o “não-eu” das coisas e das pessoas;
- Ter a concepção correta do que constitui a verdadeira auto-realização.
No primeiro aspecto, ele deve compreender que o mundo tríplice é um conjunto complexo de manifestações mentais do próprio. O segundo deve estar convencido que os fenômenos devem ser observados tal como um sonho, desamparada de uma substância real. No tópico, subseqüente, perceber que a sua própria mente é vazia. Por fim, na quarta, compreender que a auto-realização não tem discriminação da mente, e parte do princípio de unidade que proporciona a sua identidade. Buda diz que a única forma de alcançar a auto-realização é através do Veículo-Único, e que não falou muito deste princípio, pois o mesmo não tem descrição. Disse que ninguém a utiliza, a menos que os próprios Tathagatas. Quanto a experiência e realização por si mesmo, o praticante deve procurar a meditação da concentração (Dhyana). Através desta prática é possível eliminar as discriminações da mente, e assim alcançar a auto-realização da Sabedoria Nobre.

Capítulo VIII- A obtenção da Auto-Realização

Um discípulo sério percorre dois caminhos para obter a auto-realização. O primeiro é o estado do apego à auto-compreensão que resulta da sua discriminação e o seu campo da consciência com o qual ele está relacionado, e o segundo, o estado excelente e exaltado da auto compreensão da Sabedoria Nobre. No primeiro caso, busca-se aniquilar os pensamentos que são corruptores de uma boa consciência, para a altivez deste esforço poder proporcionar uma percepção receptiva ou passiva do Samadhi até então, o discípulo não terá conseguido transpor o ciclo de nascimento e morte. O Sutra diz que o discípulo deve evitar que as práticas de meditação tenham objetivos de extinguir por completo as atividades mentais, pois a mesma continuará a existir. Também cita para libertar-se da busca obsessiva pelo Nirvana, como se o mesmo fosse uma parte externa da vida do discípulo, que implica em falha, pois Samsara e Nirvana coexistem. O funcionamento da mente ocorre de uma forma muito sutil e para o praticante buscá-lo, deve permanecer longe de tumultos, excitações sociais e sonolência, só desta maneira é possível atravessar o sofrimento. Para isso, ele deve perceber a “não imagem”, capacidade dos Budas em salvar e beneficiar os seres sencientes e auto realização perfeita da Sabedoria Nobre.
Buda cita que há três fluxos mentais característicos:
- As más emanações que surgem dos três venenos;
- As más emanações que surgem através das ilusões da mente;
- As boas não emanações que resultam da Sabedoria Nobre.
As duas más emanações podem ser cessadas através de muito esforço do praticante, porém a boa não emanação pode ser obtida instantaneamente.


Capítulo IX- O fruto da Auto-Realização

Neste capítulo, o sutra cita que há dois frutos a saber: discernimento da compreensão da substância e significado das coisas e, depois em seguida, discernimento que se abre na significação dos ideais espirituais.
O sutra menciona os seis paramitas: generosidade, moralidade, paciênca, energia, concentração e sabedoria.
A partir do instante da obtenção, da iluminação, as paramitas são refletidas em constância pelo discípulo. A prática destes princípios, demonstra a compreensão absoluta que os fenômenos surgem na própria mente do discípulo. O sutra cita que há três espécies de corpos transcendentais:
- Quando o Bodhisattva alcança o gozo dos samadhis;
- Aquele assumido pelo Tathagata, alcança e aperfeiçoa o não apego e o não esforço;
- Quando o Tathagata recebe a sua intuição ao Dharmakaya.
Quando o indivíduo experimenta a “inversa” de perceber os fenômenos externos, como manifestação de sua mente, torna-se apto a transcender sua mente consciente. É desta forma que o praticante tem a possibilidade de alcançar o Dharmakaya e acessar a “Mente Universal”, e usufruir o estágio que penetra o conhecimento de todos os Budas.



O sutra cita que há dois tipos de discípulos importantes: os Arhats e os Bodhisattvas. Buda diz que os discípulos tolos, quando aderem a moralidade, acredita que poderão obter algum benefício material ou espiritual por fazê-lo, de uma forma mágica. Diferente dos três tios de discípulos, a saber: “os que entram na corrente”, “os que retornam uma vez” e “os que nunca retornam”.
Os que entram na corrente têm a capacidade e o discernimento de perceber a moralidade não projeta nenhum ganho ao praticante, mas apresentam dificuldades para perceber que a sua personalidade não é separada de um todo. Aqueles que retornam uma vez demonstram progressos espirituais superiores a primeira categoria, mas o apego obsessivo aos rituais atrapalha o alcance ao Nirvana do discípulo. Buda diz que há quatro níveis de praticantes: discípulos, mestres, os Arhats e os Bodhisattvas. Os discípulos tem boas intenções, mas tem dificuldades em entender idéias pouco conhecidas. Os mestres são aqueles que ganham um alto grau de compreensão, mas tem receio de levar os ensinamentos adiante, por estar preocupado com as adversidades, Muitas vezes eles são atraídos pelo status que a posição pode proporcionar. Os Arhats têm a capacidade de perceber que a auto-realização, se dá pela Sabedoria Nobre consumada na própria mente.


Capítulo XI- O Estado Bodhisattva e as suas etapas

O sutra diz que fazem parte deste “estado” aqueles que são esclarecidos por seus esforços e que assumem a tarefa de ensinar aos outros. Os Bodhisattvas conseguem eliminar a visão dualista e considerar os fenômenos vazios com a natureza igual a Maya, e ficam acomodados no Conhecimento Perfeito conquistado com a Sabedoria Nobre.
O Bodhisattva possui compaixão e segue os dez votos originais:
- Honrar e servir todos os Budas;
- Propagar o conhecimento e a prática do Dharma;
- Dar as boas vindas a todos os Budas vindouros;
- Praticar as Seis Paramitas;
- Persuadir todos os seres a abraçar o Dharma;
- Alcançar uma compreensão perfeita do Universo;
- Alcançar uma compreensão perfeita da reciprocidade de sentimentos de todos os seres;
- Alcançar a auto-realização perfeita da unidade de todos os Budas e Tathagatas da autp-natureza, objetos e recursos;
- Familiarizar-se com todos os meios e conhecimentos para implementar e executar esses votos, pela emancipação de todos os votos;
- Concretizar a iluminação suprema através da auto-realização perfeita da Sabedoria Nobre, ascendendo às etapas e entrando no Estado Tathagata.
Buda diz que o discípulo que segue estes votos, gradualmente alcança algo que é chamado de “sexta etapa”, referente a uma condição mental que os discípulos, mestres e Arhats podem alcançar. Pelo fato dos Bodhisattvas alcançarem níveis superiores de auto-domínio, compreendendo que a vida é projetada como um drama aos seres humanos, ele passa a superar e ascender a “sétima etapa”, chamada também de Longa Caminhada (Durangama). A partir desta etapa o discípulo já tem acesso ao Nirvana. A etapa adiante que o praticante pode alcançar é a oitava etapa que é a do “não retorno” (Acala). Esta é a marcada de uma compreensão do tempo sem início. Nesta fase, o praticante realiza a inversão no interior de sua consciência profunda. A oitava etapa, diz respeito, também, a uma ruptura com a vida comum associada com a morte do indivíduo, no sentido de sua individualidade. No instante que transcende a próxima etapa, a nona, o praticante adotará uma série de alegorias (meios hábeis) intuitivamente para conduzir os demais seres sencientes a adentrarem no caminho da auto-realização e estará na etapa da “Inteligência Transcendental”. Por fim a décima etapa, a última, será a “morada” dos Budas, refletidos pela “não-imagem” em que só é possível acessá-la através da solidão, ou seja, na própria mente. Ela é descrita como “potência inefável do Dharmakaya”, em que não há nenhum limite e é permeada por todo céu de Tushita.


Capítulo XII- O Estado Tathagata que é a sabedoria nobre

Este capítulo, se inicia com a pergunta de Mahamati, sobre se o Tathagata seria “não nascido”. Buda responde que de fato não é nascido, e que existem muitas referências através de várias denominações atribuídas a ele. Cita que a emanação de Buda, se dá através de um “corpo feito pela mente” em que a “vontade búdica” é manifesta proporcionando a emancipação. Este fenômeno esta além da compreensão dos que estão aquém aos Bodhisattvas, da sétima etapa. Cita que muitas pessoas se entregam a textos canônicos, acreditando que através deste ato pode ter acesso a verdade, proporcionando ao devoto um efeito contrário ao preterido. Buda afirma que as tentativas de detalhamento sobre a natureza dos Tathagatas pode proporcionar uma visão dualística. Por não haver nenhum tipo de condicionamento, sua essência é a própria Sabedoria Nobre. O Buda ensina que embora a vida física de um Buda seja impermanente, a sua natureza que tangencia a Sabedoria Nobre é permanente. Exatamente por não ser dotado de existência ou inexistência, não pode ser atribuído a Buda, nenhum caráter de “criador”. Quando as paixões são extintas, e os ensinamentos do Dharma são compreendidos, neste instante Buda é revelado na consciência mais profunda do obstinado. O sutra cita também, sobre os três corpos de Buda: o Buda Histórico, o Buda Mítico e o a Essência da iluminação búdica. Finaliza citando que o Dharmakaya é o princípio pelo qual todas as coisas são feitas, manifestadas e aperfeiçoadas, sem sinais de individualização, independente das tentativas de racionalização e nomenclaturas.


Capítulo XIII- O Nirvana

Neste capítulo é citado os quatro tipos diferentes de Nirvana, utilizados pelas pessoas que estão sofrendo, pelos filósofos que tentam descrevê-los, pela classe de discípulos que pensam no Nirvana em relação a eles mesmos, e o Nirvana dos Budas.
O primeiro grupo acredita que o Nirvana produza um efeito que alente à série de tormentas que o aflige, mas esta visão proporciona uma análise que o Nirvana seja dissociada do Samsara, e esta visão continua fomentando a visão de vida e morte nos fenômenos. O segundo grupo, acredita que a extinção é o resultado do Nirvana. Pelo fato da aniquilação surgir, o sofrimento é cessado, pois nenhuma sensação será proporcionada. Mas esta definição não contempla a lógica, partindo do princípio que a morte não interrompe o fim dos fenômenos, pois se trata de um evento de cunho individual. O terceiro grupo, composta por integrantes que atingira, até a “sexta etapa”, embora sejam compostas por pessoas de fé sincera, estes ainda não tiveram a oportunidade de realizar “a inversão” para o lugar mais profundo da consciência. E, por fim, o quarto grupo composto pelos Tathagatas é constituído pela iluminação advinda da própria mente, em que todas as discriminações, apegos e aversões são removidos, em que as paixões são declinadas, por fim, quando há o desejo de que todos os seres sencientes sejam contemplados pela iluminação.



domingo, 27 de dezembro de 2015

Quem pode ser considerado um budista?



Nas últimas décadas, observamos uma aproximação maior da cultura oriental em nossa sociedade, através da culinária e disponibilidade de informações em diversas mídias, como a televisão e a internet, entretanto, percebe-se que o entendimento sobre as práticas budistas não são transmitidas de uma forma coerente. 

Quando se fala em budismo, as pessoas logo associam os respectivos religiosos, envolvidos com a recitação de algum mantra ou compenetrados na meditação. É bastante comum ver as pessoas enxergarem o budista como um "ser" artificialmente calmo, que não perde a calma facilmente, que não fala palavrão, que tem até um olhar alterado devido à um condicionamento que o transforma em uma "pessoa de outro mundo". Esta percepção não condiz com a realidade, e não encontra respaldo no corpo escriturístico da doutrina.

Embora seja desejável controlar as atitudes, os pensamentos e as palavras, não apenas no sentido religioso, mas principalmente no sentido social, não é o fato de falar palavrões ou aparentar ser bonzinho que vai ser demonstrado um praticante comprometido com a religião. As práticas da meditação e de recitações de mantras são, de fato, utilizadas em celebrações e rituais cotidianos, porém, não são condições essenciais para denominar, quem realiza os atos citados, como um autêntico budista.

Afinal, qual critério devemos utilizar para considerarmos uma pessoa seguidora do budismo?

Para obtermos esta resposta, temos que analisar dois itens essenciais:
  • O praticante budista deve acreditar nas "Três Jóias": Buda, Dharma e Sangha;
  • O praticante budista deve seguir os "Cinco Preceitos": Não matar, não roubar, não mentir, abster-se de conduta sexual imprópria e abster-se de substâncias inebriantes.
Se o seu amigo que se diz budista não zelar por estes dois itens, mesmo que tenha um olhar que "transmita paz" e fale de maneira forma "mansinha" não será considerado um budista tradicional.

Bom, o número de obrigações para uma pessoa atestar a sua conversão é pequeno, mas, isto não significa que seja fácil. Em especial, tomar efetivamente os preceitos é mais difícil do que imaginamos. Isto implica em mudança de hábitos como não comer carne (não matar), deixar de tomar cerveja (abster de substância inebriante) e outras atitudes tão comuns que deveriam ser evitadas intensivamente.

Partindo do princípio que a pior das crises que vivemos é a "crise moral", podemos dizer que a aplicação prática dos preceitos é uma alternativa de mudança interior, pois, ao evitar estas cinco más ações, a pessoa imbuída destes votos torna-se apta em não ampliar as causas do sofrimento, que são surgidas pelo descumprimento das mesmas. Este enfoque nos demonstra que as recitações e meditações existem para sustentar as práticas que visam à moralidade e sabedoria, e não têm significado em si mesmas. Aliás, para as recitações terem sentido e serem contextualizadas, é indispensável que sejam feitas no próprio idioma ou em uma língua que seja compreensível ao recitante. 

Desta maneira fica bastante claro, que a definição de um praticante budista é por conta de atitudes objetivas concretizadas através da vigilância de preceitos e pela busca aos refúgios sagrados (Três Joias), e não por comportamentos subjetivos e meras sensações de "boa vibe". 

Quem tiver interesse, acesse o site http://www.tiantai.org.br/pagina_1.php

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Resumo do Sutra da Perfeição da Sabedoria que Corta como Vajra



O Sutra inicia-se com um questionamento do Venerável Subhuti ao Tathagata, acerca sobre qual deveria ser a morada e como deveria ser procedido o controle de uma mente iluminada. Buda o instrui, afirmando que se deve proteger e ter em mente todos os bodhisattvas e contemplá-los com a transmissão do Dharma. Diz que seus discípulos devem controlar as suas mentes, com o objetivo de encaminhar todos os seres sencientes ao Nirvana. Para concluir este raciocínio disse que se fosse possível apontar uma infinidade de seres que conseguissem transpor o Samsara, este fato seria uma inverdade, assim como qualquer tentativa de contextualização de um “eu” ou mesmo de um “ser vivente” e até a definição do “tempo de vida”, pois estas tentativas de descrições não são consonantes ao verdadeiro Dharma e não extraem o sentido profundo do vazio.
Se houvesse estas tentativas de algum bodhisattva, estas ações destituiriam o mesmo proponente por apresentar uma superficialidade no intento de equiparar o incondicionado ao condicionado. Exemplifica por via de um diálogo que os espaços que enxergamos em alguns pontos cardiais são imensuráveis, tal como o mérito deve ser imensurável também, e não deve haver apego à virtude, pois a virtude não é um fim em si mesma, mas um meio para cessar o sofrimento.
Adiante no Sutra, Subhuti pergunta ao Insuperável se no futuro as pessoas que o ouvirem deverão ser recíprocos ao ensinamento, despertando à iluminação. O Perfeito o renega moderadamente abordando que depois de cinco séculos haverá uma fração diminuta que será sensível às suas palavras douradas, e as concebendo como verdadeiras. Diz que para esta possibilidade ser consumada, o plantio dos méritos não se dará por apenas poucos budas, mas sim com infinitos milhões. Todos que conseguem reconhecer seu ensino são vistos e reconhecidos pelo Perfeito, e obterão infinitos méritos pôr terem-no enxergado.
Buda continua a tecer seus comentários com seu discípulo, arguindo sobre o motivo daqueles que o enxergam serem desprendidos à conceitualização. Diz que as pessoas não devem se apegar à individualidade, e devem agir conforme o pregado na parábola da jangada, em que a virtude é descrita como objeto incumbido pela travessia entre as margens, e que logo em seguida de sua utilização deverá ser deixado em desuso, pois a partir do momento em que há uma insistência em usar o veículo como se fosse perene, em toda ocasião, deixaria de ser um objeto e passaria a se tornar um peso, que o faria mudar da condição de um meio para um fim.
Na sequência dos questionamentos propostos pelo Tathagata, perguntou ao Subhuti se tinha alcançado a suprema iluminação. O Venerável discípulo respondeu que em essência não existe tal fenômeno ipsis litteris descrito e também não há um fenômeno que se possa explicar como se fosse uma fórmula ou equação, pela razão da completude de um sábio se encontrar no que seja metafísico e não em fenômenos do mundo manifesto passíveis de descrição e condicionamento.
A próxima questão que o Perfeito remeteu a seu interlocutor da obra, foi: se uma pessoa doasse os Sete Tesouros e cobrisse uma extensão indescritível de tamanha quantidade da oferta realizada, obteria muitos méritos por conta da doação? A resposta foi afirmativa, pelo fato do mérito em si não poder ser tomado como uma distinção ou algum elemento que possa inflar o ego. O mérito, portanto, transbordaria a personalidade e se estenderia a um raio incalculável. Na continuidade do parágrafo cita que se apenas quatro ou mais versos deste sutra fossem transmitidos aos outros, os méritos seriam superiores aos que tivessem doado os referidos tesouros, pelo fato da suprema iluminação ter como ponto de partida este Sutra. Finaliza comentando que a descrição “Buddha Dharma” não pode ser considerada “Buddha Dharma”, abordando sutilmente que o alcance da iluminação é indescritível e incondicionado, então o fenômeno em si não pode ser descrito com as mesmas palavras.
Na sequência dos paralelos simbólicos instituídos pelo Perfeito, apresenta para o discípulo a indagação de que se houvesse uma pessoa com o corpo do tamanho do Sumeru tal pessoa seria grande. Subhuti respondeu de forma afirmativa dirimindo que a questão do corpo não é restrita ao orgânico, mas ao acúmulo de méritos que faz com que os bodhisattvas preencham o vazio dos fenômenos com a vastidão de méritos.
A próxima questão proposta foi em relação a possibilidade de haver tantos rios Ganges quanto os grãos de areia existentes no rio Ganges. Dentre esta causalidade, foi perguntado se os grãos de todos estes rios Ganges seriam muitos. A resposta foi afirmativa, pois haveria uma infinidade de rios, que se multiplicariam em números imensuráveis de grãos. Na sequência o Tathagata afirma, e ao mesmo tempo questiona, que se um bom homem ou uma boa mulher doassem os sete tesouros na proporção da quantidade dos grãos expressa, e cobrissem os três mil grandes milhares de mundo, obteria méritos. Shubuti responde de forma afirmativa. Para concluir esta parte do diálogo Buda diz que se alguém recebesse quatro ou mais versos deste Sutra, obteria méritos superiores ao anterior. Diz também que que os devas, humanos e asuras deverão fazer oferendas aos que recitam este Sutra, como se fizessem oferenda a um stupa de Buda. Diz também que quanto mais o discípulo se imbuir do conteúdo deste, mais próximo estará da suprema iluminação, e que onde este ensinamento puder ser encontrado, haverá um buda ou um respeitável discípulo, ou seja, quem estiver realizando a leitura deste, destrinchando seu significado, estará orbitando no profundo significado das palavras sublimes do Perfeito.
Após a exposição da dimensão infinita acerca da importância deste ensinamento, Subhuti questiona sobre a maneira de chamá-lo, assim como a maneira de guardar os seus profundos significados. Buda diz que deve ser chamado de Sutra da Perfeição da Sabedoria que Corta como Vajra, e desta maneira ser guardado. De forma muito sutil descreve que a “Perfeição da Sabedoria” não pode ser descrita como “Perfeição da Sabedoria”. Buda expressa que o ensinamento não é inteligível aos que abrirem esta página e realizar a leitura, se forem desprovidos da profundidade da exposição contida. 
Demonstra isto, quando comenta com o discípulo se falou sobre o fenômeno neste Sutra, e obteve uma resposta negativa. É como se quem não soubesse do significado do Dharma, lesse os versos do Sutra e não pudesse compreender absolutamente nada.
Buda realiza comentários a respeito da paramita da paciência, que é desprovido de conteúdo real. Disse que quando o seu corpo foi desmembrado pelo rei de Kalinga, não tinha a conceitualização de um eu, pois, se tivesse a percepção de perenidade, surgiria em si sentimentos de ira e ódio. Expressa que a ordem mental deve ser mantida, e que o fato de não contextualizar os fenômenos auxilia no desprendimento e na manutenção do equilíbrio. Cita que em suas vidas anteriores, já era um praticante da paciência, que o livrava dos enganos da conceitualização. Diz a Subhuti que a mente plenamente iluminada deve abandonar às denominações, e não deve fazer surgir os fenômenos na mente. Ratifica que a mente deverá ser sem abrigo algum, e por ventura se tiver alguma morada, será incorreta. Finaliza o parágrafo comentando que a dedicação aos méritos deverá ser incomensurável, porém a preocupação em definição do que quer que seja o conceito deverá ser abandonada, pois este é o mecanismo de cultivo de méritos e aproximação ao Supremo Caminho.
Tathagata fala ao discípulo que sempre expõe a verdade e que de forma alguma fala o que é falso ou errôneo. Diz que o fenômeno alcançado não é real e nem ilusório, pois a conquista obtida, quanto a perceber a Verdadeira Realidade não há como se evidenciar ou comprovar. Só poderá ser consumada pela própria pessoa orientada pelas virtudes do ensinamento, e jamais descrito com as palavras a um terceiro. Faz uma bela analogia que o bodhisattva preso às descrições dos fenômenos é equiparado a quem entra em um lugar escuro e nada pode ver, enquanto aquele que acumula mérito de forma desmedida e sem apego é como quem pode enxergar todos os tipos de coisas com uma mente iluminada.
O Tathagata acrescenta, suas exposições de ideias, que os ensinamentos compreendidos neste Sutra são para aqueles pertencentes ao Grande Veículo. Também cita que aqueles que são capazes de recebê-la, devem ter o compromisso de serem responsáveis por ela. E afirma que aqueles que se contentarem com o Pequeno Veículo, estarão no mesmo nível daqueles que se limitam a questões mundanas, com observações condicionadas, e pessoas que assim se portarem, estarão impossibilitadas da transmissão do Dharma.
Disse a Subhuti que onde houver este sutra, deverá ser reverenciado como uma stupa, pois o mesmo é digno de reverências. Disse que se algum bom homem ou boa mulher recebe-lo, este Sutra, mesmo que tenha percorrido transgressões em suas vidas passadas, percorrerão o caminho da Suprema Iluminação, pelo fato de ser fiel ao ensinamento. O Perfeito disse que antes de alcançar o mais profundo estágio da Verdadeira Realidade, ele serviu a uma quantidade infinita de Budas, mas que se uma pessoa no Período Final do Dharma, puder receber, manter, ler e recitar de memória este Sutra, obterá ainda mais virtudes do que ele teve.Na sequência Buda pergunta novamente à Subhuti se tinha alcançado o a suprema iluminação quando estava com o Buddha Dipamkara. O discípulo respondeu que pelo todo entendimento da doutrina, que tinha recebido, o Bhagavant não tinha alcançado nenhum fenômeno. A justificativa que Buda deu para não ter recebido nenhum fenômeno, foi pelo fato de Buddha Dipamkara ter profetizado que no futuro, o Bhagavant se tornaria Shakyamuni. Nesta descrição, se dá a impressão que a questão de uma denominação búdica, não deve ser interpretada como uma questão física observável, mas como um fenômeno da mente que não pode haver identificação, e que tem uma importância muito maior por sua potência do que a manifestação visível, pois, aquele que tem a compreensão da Verdadeira Realidade não tem a posse de nenhum fenômeno, deve manter o desejo intenso de oportunizar que outros seres viventes possam encontrar a via da iluminação.
Buda pergunta ao discípulo, de forma sequencial se Ele possui os olhos físicos, o Olho Divino, o Olho da Sabedoria, o Olho do Dharma e o Olho do Dharma. Todas as respostas de Subhuti foram positivas às questões. Buda é o único que consegue enxergar as questões sagradas do Grande Veículo e os fenômenos invisíveis, inerentes ao vazio, que as pessoas comuns não conseguem enxergar.
Após a descrição do poder do Olho de Buda, descreve sobre a mente. Disse que tem o poder de conhecer a mente, pois ensina que estas mentes são condicionadas, e todas possuem em si a não mente, que seria a possibilidade da percepção do vazio. Para esta realização, diz que a mente não pode ser restrita ao passado, presente e ao futuro, ou seja, a não mente é atemporal.
Buda fala para Subhuti que costumam associar que o Tathagata tem poder de libertar os seres senciente. Continua a falar que esta possibilidade não existe, pois se ele fosse capaz de libertálos, seria remetido a um eu, um indivíduo com período de vida delimitado. O Tathagata não é um ser vivente, e as pessoas comuns não são pessoas comuns, são chamadas de pessoas comuns. Este trecho é muito interessante por expressar que a Suprema Iluminação é incondicionada e que não é apenas o fenômeno do qual Shakyamuni foi acometido.
Buda continua seu discurso a Subhuti afirmando que um bodhisattva não aceita méritos pois a sua determinação é gera-los e não se apegar a eles. Disse também que se alguém especular sobre a origem do Tathagata assim como sobre o seu destino, não terá compreendido o profundo significado de seu ensinamento.
Prestes a finalizar o Sutra, o Bhagavat reforça as suas comparações demonstrando que os fenômenos não são substanciais como as pessoas afirmam ser, que os fenômenos manifestos são denominados pelas pessoas com as respectivas descrições atribuídas, assim o é para as partículas minúsculas, os três mil grandes milhares de mundo, entidade unificada, visão de um eu, de um indivíduo, ser vivente ou período de vida. Todas estas descrições são vazias, porém rotuladas pela mente das pessoas comuns.
Finalizando a pregação do Tathagata, volta a reforçar que aquele que conserva este Sutra ou apenas quatro versos, recebendo-o, mantendo-o, lendo-o, recitando-o de memória e transmitindo-o a outras pessoas terão méritos incalculáveis. E por fim, quando Subhuti o questiona sobre a maneira de transmitir este Sutra, responde que deverá sê-lo feito sem o apego à conceitualização, de uma forma imóvel como a Verdadeira Realidade. Justificou que esta procedência deve ocorrer por conta de os fenômenos serem condicionados, como as sensações, as formas visíveis e os fenômenos da natureza. 
Este Sutra também é conhecido como o Sutra do Diamante. Como muitas vezes citado, este ensinamento contém muito mais valor do que todas as joias do universo, mas só pode ser enxergado por aqueles que obtiverem os Olhos de Buda. Enquanto não ser visto por quem tenha esta condição, o livro impresso não terá valor algum, assim como o Dharma. E quem o obtiver nada vai possuir, pois seu valor intrínseco é preparar aquele que o acessa a transmiti-lo para quem estiver na busca da Suprema Iluminação.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Qual a importância de buscar a espiritualidade nos dias atuais?

Quando fazemos uma reflexão a respeito da importância de termos uma religião, dificilmente deixamos de considerar o que os familiares ou amigos dizem: É preciso acreditar em alguma coisa!
Este é um dos primeiros elementos que nos inclina a selecionar algum grupo religioso e geralmente são demandados por conta de doenças, dificuldades financeiras e de relacionamentos sociais.
Como grande parte dos problemas que enfrentamos são reversíveis, no instante que os mesmos são sanados são atribuídas às divindades a solução derradeira do que foi superado. Algumas pessoas se tornam tão gratas com a sequência feliz dos fatos sucedidos que, em nome da resolução obtida, criam vínculos com as supostas "forças" que acreditam terem operado a seu favor. Assim como, também, tantos outros logo após finalizarem com "êxito" o seu "pedido" desfazem o elo evocado para a obtenção da graça, deixando as práticas realizadas para o último plano.  
Mas será que a espiritualidade é apenas uma necessidade do homem em acreditar em algo ou ainda uma maneira eficaz de se obter coisas?
Infelizmente, a cada dia que passa a sociedade responde positivamente esta questão. A espiritualidade se torna um mero apetrecho que as pessoas devem ter de forma social, de uma maneira bastante ponderada e de preferência que o seu sentido doutrinário mais profundo seja inexequível, pois se houver uma busca pela realização do ensinamento apreendido, o devoto não será bem visto e será tido como radical. Um religioso que interpretar o seu livro sagrado de uma maneira consciente e convicta, verá o seu círculo de amizade se afastar como o desembocar das ondas.
Para a superação das diversas questões materiais que nos dizem respeito, a ciência e as diversas ferramentas do mundo secular poderão resolvê-las. Quem tiver uma doença e for cuidadoso com a sua saúde, poderá encontrar meios adequados para extirpar a sua moléstia. Quem se dedicar ao trabalho e produzir com muita disposição, poderá reverter suas dificuldades financeiras e se tornar até mesmo uma pessoa próspera. Quem tiver dificuldades de relacionamento, se tomar nota de suas características hostis avessas a formação de vínculos, poderá se inclinar a uma mudança gradativa e tornar-se uma pessoa agradável. Todas estas situações tem em comum a condição do indivíduo conseguir reverter seus problemas mais proeminentes por seus próprios esforços.
Pois bem, indo adiante no raciocínio a respeito da importância da busca pela espiritualidade, temos algumas considerações importantes a fazer.
O indivíduo que procura ensinamentos que sejam coerentes e tenham um cunho de tradicionalismo, passa a conviver mais com referências que o estimule a reflexão de seus limites. É muito mais importante estar atento às coisas que fazemos, à disciplina que temos diante das obrigações, do que criar rotinas que privilegiem as orações sem uma fundamentação coesa com a realidade vivida. A religiosidade viva passa a ser "exalada" quando o praticante reflete suas boas intenções em seus gestos, palavras e ações. Mas esta obstinação não deve ter o intuito de ostentar uma pessoa exemplar, deve ser uma conduta que vise a melhoria do próprio indivíduo, em relação a ele mesmo. O tempo em que a pessoa fica reclusa em oração ou estudo não são parâmetros para refletir a concretude e bondade de suas realizações. 
Nestes últimos anos temos percebido uma série de transformações nas relações sociais, e se perdermos o foco de questões sagradas, temos o risco de ficarmos submersos aos aparatos que a sociedade atribui como prioritários. Dentre as mudanças que percebemos não podemos deixar de estarmos revestidos de valores, pois a busca pela aceitação dos diversos grupos que estamos inseridos, nos faz perder a capacidade de reflexão.  
Quem conseguir enxergar a espiritualidade descontextualizada de interesses, poderá se aproximar mais do sentido contemplativo proposto por uma doutrina. A vida não é composta apenas por religião e filosofia, mas sem a presença de ambas, o sentido mais sagrado de nossa existência deixa de ser compreendido.
O caminho para auto-realização tem o seu elevado valor por si mesmo, mas como os seres humanos são arrastados somente por coisas que podem ser quantificadas e qualificadas, vivem, conforme cita o Buda no Sutra do Lótus, uma vida insignificante do ventre ao cemitério.